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Violência por parceiro íntimo (VPI): um ciclo que pode ser quebrado?

agosto lilás Violência por parceiro íntimo (VPI): um ciclo que pode ser quebrado?

A violência doméstica é um tema amplo, que abrange questões culturais, sociais e políticas, e causa profundo sofrimento psicológico. É considerada uma grave violação dos direitos humanos e um problema de saúde pública, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS, 2002). A VPI afeta mulheres de todas as idades e classes sociais no mundo todo, sendo mais prevalente em contextos marcados pela desigualdade de gênero.

No Brasil, uma mulher é vítima de violência a cada quatro minutos. Dos 1.453 casos de feminicídio registrados no país em 2023, 67% foram cometidos por parceiros e 23% por ex-parceiros afetivos (Fórum Brasileiro de Segurança Pública [FBSP], 2024). Esses números evidenciam a gravidade do problema e o profundo adoecimento emocional presente em muitos relacionamentos.

A divulgação de vídeos que flagraram agressões, somada às denúncias feitas por mulheres públicas, expõe situações de abuso físico, sexual e psicológico, maus-tratos, cárcere privado e outras formas de violência, como controle de comportamento e desrespeito à dignidade. Na maioria das vezes, essas situações permanecem ocultas pelo medo de retaliação, pela culpa ou pela vergonha.

Apesar dos avanços legais das últimas décadas — como a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) e a tipificação do feminicídio — ainda há grandes desafios no cuidado das sequelas físicas e emocionais deixadas pela violência. Além do sofrimento imposto por parceiros abusivos, muitas mulheres enfrentam preconceito e a banalização de seus pedidos de socorro, o que reforça o isolamento e dificulta a busca por ajuda.

Muitas permanecem por anos em ciclos abusivos, repetindo padrões relacionais destrutivos. O chamado Ciclo da Violência, descrito pela psicóloga americana Lenore Walker (1979), envolve três fases: (1) aumento progressivo da tensão emocional; (2) explosão violenta; e (3) a chamada “lua de mel”, quando o agressor faz promessas, juras de amor e implora perdão. Esse ciclo se repete, sustentado por fatores como baixa autoestima, medo, isolamento social, rede de apoio frágil ou inexistente, dependência emocional, histórico de traumas e vínculos de apego desorganizados, que aprisionam a vítima em tramas emocionais complexas.

Além das marcas físicas, a violência doméstica deixa cicatrizes profundas na saúde mental. Muitas mulheres desenvolvem Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), com sintomas como revivência constante dos abusos (flashbacks), hipervigilância, insônia, crises de ansiedade, culpa persistente, embotamento afetivo, dificuldade de confiar e sensação contínua de ameaça (American Psychiatric Association [APA], 2022).

Romper esse ciclo exige mais do que coragem — é necessário tratamento especializado e baseado em evidências para reparar danos emocionais e prevenir a revitimização. Intervenções psicoterapêuticas focadas no trauma, como o EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) (Shapiro, 2018), têm se mostrado eficazes na reconstrução da autoestima e na reorganização de vínculos afetivos. Ao promover o reprocessamento das memórias traumáticas, o EMDR reduz o impacto emocional, reorganiza experiências vividas e amplia a capacidade de romper vínculos abusivos (Dessauvage, Dillen, Van Heugten & Declercq, 2022; Mosquera & Knipe, 2017).

O acesso e a ressignificação de experiências passadas fortalece o senso de valor e a autonomia emocional da mulher, permitindo que ela compreenda seu modelo relacional, questione seu entendimento sobre amar e sua crença na possibilidade de ser amada de forma saudável. Como disse Nietzsche: “Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre também alguma razão na loucura.” Com informação, apoio terapêutico qualificado e redes de proteção seguras, é possível transformar essa “loucura” em um amor livre de violência e pautado no respeito mútuo.

Denunciar é o primeiro passo. O próximo — igualmente essencial — é oferecer amparo e tratamento para os traumas emocionais e para os padrões de relacionamento. Romper o ciclo da violência é possível. Com informação, apoio terapêutico qualificado e redes de proteção seguras, mulheres podem reconstruir sua vida com dignidade e autonomia emocional.

Sobre a autora

Sirley Bittu é psicóloga clínica, especialista em neurociência e no tratamento de traumas, com ênfase em eventos traumáticos pontuais e violência doméstica. Atua há mais de 20 anos com EMDR, integrando à sua prática a Teoria do Apego e o Psicodrama. Possui ampla experiência no atendimento a vítimas de violência por parceiro íntimo e na reestruturação de vínculos afetivos prejudicados. É idealizadora do projeto “EMDRparatodos”, voltado à democratização do acesso a intervenções baseadas em evidências científicas.

Referências

  • American Psychiatric Association. (2022). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. Artmed.

  • Dessauvage, E., Dillen, L., Van Heugten, C., & Declercq, F. (2022). The effectiveness of EMDR in adult survivors of intimate partner violence: A systematic review. Journal of Trauma & Dissociation, 23(1), 1–17. https://doi.org/10.1080/15299732.2021.1976171

  • Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). (2024). Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024. São Paulo: FBSP. Disponível em: https://forumseguranca.org.br

  • Mosquera, D., & Knipe, J. (2017). Working with complicated grief and traumatic bereavement: A practical guide for EMDR clinicians. Journal of EMDR Practice and Research, 11(1), 54–66. https://doi.org/10.1891/1933-3196.11.1.54

  • Organização Mundial da Saúde (OMS). (2002). World report on violence and health. Geneva: WHO. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9241545615

  • Shapiro, F. (2018). Eye Movement Desensitization and Reprocessing (EMDR) therapy: Basic principles, protocols, and procedures (3rd ed.). New York: Guilford Press.

  • Walker, L. E. (1979). The Battered Woman. New York: Harper & Row.
Foto de Sirley Bittu

Sirley Bittu

Psicóloga especialista clínica, supervisora e
facilitadora certificada pelo EMDR Institute.

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